A morte de Benedito Ruy Barbosa, nesta terça-feira (7), aos 95 anos, reacendeu lembranças sobre a trajetória de um dos maiores autores da teledramaturgia brasileira. Responsável por sucessos como 'Pantanal', 'Renascer' e 'Terra Nostra', ele também protagonizou episódios que dividiram opiniões, entre eles uma declaração sobre personagens LGBTQIAPN+ que repercutiu há uma década.
Em abril de 2016, durante o lançamento da novela 'Velho Chico', marcada pela morte do ator Domingos Montagner, Benedito Ruy Barbosa falou sobre o aumento da representatividade LGBTQIAPN+ nas novelas e fez uma declaração que gerou críticas de artistas, jornalistas e ativistas.
"Odeio história de bicha", disparou o novelista durante uma entrevista ao jornal Extra. Apesar disso, o autor afirmou que não era contra pessoas homossexuais, mas defendia que o tema fosse tratado com cautela na televisão: "Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para as crianças".
Benedito Ruy Barbosa, que já viveu um momento inusitado com Solange Couto nos bastidores da TV, também disse sentir um "puta orgulho" por seus netos e bisnetos serem "tudo macho pra cacete".
Na entrevista, Benedito explicou que sua preocupação estava relacionada ao alcance das novelas: "Não sou contra, não acho errado. O que acho é que quando eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo".
"Tenho que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja, porque eles não sabem explicar, não sabem como colocar. Muita gente reclama disso para mim. O que não é justo é você transformar: só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal. É assim que estamos vivendo", disparou na ocasião.
As declarações receberam críticas de diferentes personalidades, entre elas o autor Aguinaldo Silva (Três Graças), que é assumidamente homossexual, e o então deputado e ativista Jean Wyllys. Na época, Walcyr Carrasco, autor de 'Quem Ama Cuida', também comentou a repercussão e defendeu o direito de opiniões diferentes coexistirem.
"Eu acho que estamos vivendo em tempos de ditadura do politicamente correto. O Benedito é um senhor de idade, com opiniões conservadoras, mas tem o direito de expressá-las. Assim como eu tive o direito de em 'Amor à vida', mostrar na telinha o primeiro beijo gay em TV aberta do país. O que não se pode, tanto de um lado como de outro, é massacrar quem tem opinião contrária. Isso é democracia", disse.
Apesar das declarações de 2016, Benedito Ruy Barbosa já inseriu personagens LGBTQIAPN+ em suas novelas. Em 'Pantanal', exibida originalmente pela TV Manchete em 1990, Benedito criou Zaqueu, personagem interpretado por João Alberto Pinheiro. O mordomo, que deixa a vida no Rio de Janeiro para trabalhar em uma fazenda no Pantanal, era assumidamente gay e se tornou um dos personagens mais queridos da novela.
Com personalidade forte e bem-humorada, Zaqueu enfrentava piadas e preconceitos sem perder a irreverência, mas se viu perdido em seus sentimentos por Zaqueu, que não os correspondeu. No remake de 2022, feito pelo neto Bruno Luperi, o personagem foi interpretado por Silvero Pereira, e ganhou ainda mais destaque.
A abordagem da diversidade não ficou restrita a Zaqueu, já que, na mesma novela, Benedito também retratou o preconceito por meio da relação entre José Leôncio e seu filho Jove. Criado pela mãe no Rio de Janeiro, Jove era constantemente alvo de comentários preconceituosos do pai, que acreditava que o rapaz fosse gay por não corresponder ao estereótipo do peão do Pantanal.
Ao longo da trama, o público descobre que Jove é heterossexual e vive um romance com Juma, personagem de Cristiana Oliveira. A construção da história evidenciava justamente o preconceito baseado em padrões de masculinidade.